Episódio 01


Olá.

Eu sou Tiago Rogero.

Este é o 1º episódio do Negra Voz Podcast, o podcast de História Negra do Brasil do Jornal O Globo.

Aí tem sempre um que vai dizer: 

“História NEGRA do Brasil? A História do Brasil é uma só! Nem preta e nem branca”. 

A História do Brasil é, mesmo, uma só. 

Em geral, uma que costuma ignorar nosso passado Negro e Africano — que vai muito além de influências só na gastronomia ou na música —, e uma narrativa que costuma invisibilizar os feitos de pessoas negras.

RUTH: “Eu sou apaixonada por cinema, né? Hollywood pra mim é um sonho”

Esta é Dona Ruth de Souza, nossa grande Dama do teatro, da TV e do cinema, que nos deixou em 28 de julho de 2019, aos 98 anos. 

Essa entrevista, uma das últimas de Dona Ruth, foi gravada em dezembro na casa dela, no Flamengo, na Zona Sul do Rio.

Conversamos sobre a vida e a carreira dela.

Ruth de Souza foi a primeira atriz brasileira indicada a um prêmio internacional de cinema, a primeira atriz negra a se apresentar no palco do Teatro Municipal do Rio, e a primeira atriz negra a protagonizar uma novela na TV brasileira

Ruth de Souza abriu portas.

((( Trilha )))

RUTH: “Todo mundo diz isso e eu fico sem jeito, até, porque eu lutei pela minha carreira, né? Não pensei se eu estava abrindo caminho. Eu sempre digo que se eu abri o caminho vieram atrás de mim porque quiseram. Na verdade, eu me sinto assim até sem graça quando dizem que eu abri caminho. Comecei, né, depois apareceram outros com mais coragem de entrar, de chegar. Talvez por falta de coragem de enfrentar, porque o negócio de preconceito de cor foi muito difícil”

((( Trilha )))

RUTH: “Eu via muitos filmes e sempre dizia: ‘Eu quero ser atriz’. Todo mundo ria de mim. ‘Imagine uma atriz preta!’. Eu nunca liguei. Minha mãe dizia: ‘Olha, eu não quero você com complexo. Com educação, postura e comportamento as portas vão se abrir pra você. Não ligue, não’. Aos sábados ela levava as roupas para as freguesas, eu fui com ela na casa de uma senhora para quem ela lavava roupa, e mamãe toda orgulhosa: ‘Ela sabe ler, ela quer ser atriz’. A mulher me olhou com uma cara que eu nunca esqueci. ‘Essa menina quer botar o chapéu onde não alcança’. Engraçado que eu com 9, 10 anos entendi bem que a mulher não era elegante, não”

Elegante é uma boa palavra para descrever Dona Ruth de Souza.

Mas uma palavra só é pouco. 

Então vamos lá. 

Ruth Pinto de Souza nasceu em 12 de maio de 1921. É filha de Alaíde Pinto de Souza e Sebastião Joaquim Souza. 

RUTH: “Eu nasci no Engenho de Dentro. Depois fui para o interior, meu pai tinha um pequeno sítio, fui para o interior ainda neném. Fiquei lá até os 9 anos, quando ele faleceu. Com 9 anos eu vim pro Rio, minha mãe vendeu lá o sítio e viemos morar no Rio. Minha mãe lavava roupa e criava três filhos: eu, minha irmã e meu irmão. Eu tive uma infância bem feliz”

Eles voltaram ao Rio e foram morar em Copacabana. Lá, a garotinha Ruth conheceu o que era… cinema. O primeiro filme que ela viu foi “Tarzan, o Filho das Selvas”, de 1932. 

É desse filme que vem aquele grito famoso…

((( Grito do Tarzan )))

Sempre que podia, Dona Alaíde levava Ruth, Antônio e, Maria para o Cinema Americano, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Como a maioria dos Cinemas de Rua do Brasil, ele não existe mais. Em seu lugar, hoje, há uma academia. 

RUTH: “Nessa época que eu estava indo para o colégio, escola pública, tinha um livro de leitura que explicava raças: o índio, o negro e o branco. E tinha as figuras todas, e o negro tinha uma cabeça meio pontuda. Aí dizia ‘O negro tem o cérebro atrofiado’. Comecei a chorar. Dona Anita, minha professora, mudou a leitura. Mas criança é sempre cruel, né? ‘Você não vai ler porque você tá com a cabeça atrofiada’. Aí no meu desespero eu ganhava 10 sempre para provar que o meu cérebro não era atrofiado”

Enquanto estudava, e estudava muito, Ruth de Souza mantinha vivo o sonho de ser atriz. 

Aos 17 anos, ela leu na antiga “Revista Rio” sobre um grupo de teatro formado só por Atores Negros. Era o Teatro Experimental do Negro, a companhia fundada em 1944 pelo intelectual Abdias do Nascimento, o escritor, dramaturgo e professor universitário. Quando Ruth conheceu o grupo, eles estavam preparando uma montagem da peça “O imperador Jones”, de Eugene O’Neill.

RUTH: “O teatro nasceu porque não tinha negro no teatro. Abdias do Nascimento fundou por causa disso. Lembro que não tínhamos um teatro onde montar a peça. Aí disse assim pro diretor: ‘Vamos pedir ao prefeito que ele empreste o teatro'”.

O imponente Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

RUTH: “O Municipal pra mim é uma joia, adoro o Municipal.  Ele emprestou o teatro no dia 8 de maio de 1945, o dia em que acabou a guerra. A gente lá dentro interpretando e, lá fora, o mundo inteiro festejando o final da guerra.”

Foi assim que Dona Ruth de Souza se tornou a Primeira Atriz Negra a se apresentar no palco do Teatro Municipal. 

RUTH: “Eu trabalhei cinco anos no Teatro Experimental do Negro como amadora. Aí depois foi como profissional num grupo que chamava Comediantes, tinha Cacilda Becker, todo mundo começando, né? E baseado num livro de Jorge Amado, ‘Terra sem fim’. Jorge Amado ia todo dia para lá, ele era deputado na época, mas 5 horas ia direto pro teatro ver o ensaio da  gente”

Em 1949, Alberto Cavalcanti e Franco Zampari fundaram, em São Bernardo do Campo, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz. A produtora fez TANTOS filmes que ganhou o apelido de Hollywood Brasileira.

RUTH: “Alberto Cavalcanti, que era um grande cineasta brasileiro que fez muitos filmes na Inglaterra e tudo, veio para a Vera Cruz para organizar pro Franco Zampari, e viu meu trabalho me convidou para ir para São Paulo. Então lá eu fiz um filme atrás do outro. Fiz  ‘Terra Violenta’, ‘Terra é sempre Terra’, ‘Ângela’, ‘Candinho’, ‘Sinhá Moça’… Era muito gostoso, levantava 5 horas para chegar lá 7, porque nós morávamos ali no Bela Vista, mas íamos para São Bernardo do Campo todo dia. Então ali era maravilhoso, todo mundo um torcendo pelo outro, todo mundo querendo acertar, né?”

Em 1950, Ruth recebeu uma bolsa de estudos da Fundação Rockefeller e passou um ano estudando nos Estados Unidos: em Harvard e na Academia Nacional do Teatro Americano. 

Quando ela voltou ao Brasil, foi convidada a interpretar a escravizada Sabina em “Sinhá Moça”. 

A trama se passa nos últimos anos antes da assinatura da “Lei Áurea”. 

Por esse papel, Dona Ruth se tornou a Primeira Atriz brasileira a ser indicada a um prêmio internacional de cinema: o Leão de Ouro de Melhor Atriz, no Festival de Veneza de 1954.

RUTH: “Concorria com Lilli Palmer, Michèle Morgan e Audrey Hepburn. Eram grandes estrelas da época, né? E eu não ganhei porque o meu papel era de coadjuvante. Mas eu não sabia de nada. Lembro que tinha uma amiga minha que trabalhava como secretária do doutor Franco Zampari, ela viu ele lendo o telegrama de que talvez eu ganhasse, ela foi correndo lá me contar e eu fiquei sabendo assim. Aí também num entendi muito… Não mandaram ninguém lá pra acompanhar nada…”

Quem levou o prêmio foi a alemã Lili Palmer, por “Leito nupcial”. 

E Ruth continuou a carreira no teatro e no cinema. 

Fez filmes como “Candinho”, com Mazzaropi, e “Assalto ao trem pagador”, com Grande Otelo. 

((( Trecho de “Assalto ao trem pagador” )))

Ainda nos anos 50, ela fez os primeiros papéis na TV, em teleteatros. 

Mas foi em 1965 que ela atuou pela primeira vez numa novela: “A deusa vencida”, da TV Excelsior, que não existe mais.

Quatro anos depois, Ruth de Souza fez sua estreia na TV Globo, em “Passos do vento”, de Janete Clair.

RUTH: “Aí o Sérgio Cardoso, que era muito meu amigo, estava fazendo sucesso na Tupi, ele tinha feito judeu, português, e decidiu fazer um negro. O Sérgio tinha feito vários papéis na Tupi. E trazia também publicidade. Então ele me convidou para fazer a Cloé, que era a mulher do Pai Tomás”

A novela “A Cabana do Pai Tomás” foi inspirada no livro homônimo escrito pela americana Harriet Stowe, uma escritora branca abolicionista. 

A obra foi publicada pela primeira vez em 1852 e fez tanto sucesso que teria sido um estopim para o início da Guerra Civil dos Estados Unidos, que pôs fim à escravidão por lá. 

Para viver o escravizado Tomás, foi escolhido um ator… branco: Sérgio Cardoso. 

Ele usava peruca e pintava o rosto, a prática que hoje chamamos de… blackface. 

A Dona Ruth tinha muito carinho pelo Sérgio Cardoso. Ela costumava dizer que, toda vez em que pediam a ele a indicação de uma atriz, Sérgio respondia com o nome dela.

RUTH: “Acontece o seguinte: muita gente também fez maldade. Chegaram a dizer que o Sérgio botava rolha no nariz para ficar com o nariz de negro. Alguém pode falar com rolha no nariz? Mentira, não tinha nada disso. Ele só passava uma maquiagem mais escura… Muita gente falou ‘Ah, você não tem que fazer porque, imagina!’. Eu falei ‘Olha, eu vou trabalhar, vou… não tenho nada com isso'”.

Assim, em 1969, Ruth de Souza se tornou a Primeira Atriz Negra a protagonizar uma novela na TV brasileira. 

((( Trecho da trilha de abertura de “A cabana do Pai Tomás” )))

Então eram dois protagonistas: Sérgio Cardoso e Ruth de Souza.

Só que o nome dela não aparecia na abertura dos créditos. Primeiro, vinha o do Sérgio. Depois, de outros atores e atrizes brancos… e então Ruth de Souza. 

Esse não foi, claro, o único caso de preconceito que Dona Ruth de Souza enfrentou na carreira. 

RUTH: “Houve uma novela em que tinha o céu e tinha o inferno. “A viagem”, o nome. Na parte do céu, tinha cavalinho branco, tudo branco, tudo branco… Aí perguntei pro produtor: ‘Escuta, negro não vai pro céu não, é?’. Aí chamaram a Léa Garcia pra fazer a mortinha negra do céu”.

Ruth de Souza atuou em mais de 30 filmes, 20 peças de teatro, 30 novelas e mais de uma dezena de outros papéis na TV. 

Teve uma carreira premiada. 

Ganhou dois Prêmios Saci, por “Sinhá Moça” e “Fronteiras do inferno”; foi escolhida a Melhor Atriz do Festival de Gramado, em 2004, por sua atuação em “As filhas do vento” e, em 2013, foi homenageada no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro pelo Conjunto da Obra. 

((( Trecho de “O Clone” )))

Por duas vezes na carreira, Dona Ruth interpretou Carolina Maria de Jesus, a grande escritora brasileira, autora de “Quarto de despejo”. A primeira foi no teatro, em 1961. A segunda, para a minissérie “Caso verdade”, da TV Globo, em 1983.

Nessa entrevista, a Dona Ruth me disse que considera esse papel, para a minissérie, a atuação de que mais se orgulha na carreira.

RUTH: “No ‘Quarto de despejo’ eu esqueço que sou eu, que realmente está muito bom”

Nos últimos meses, mesmo na cadeira de rodas, Dona Ruth era presença constante em peças, musicais e estreias de cinema. 

RUTH: “Eu vejo todas as peças que tem. Preciso sair, não posso ficar dentro de casa o tempo todo. Vou cadeirante, mas vou. Sempre que passa uma peça eu vou ver… Pessoal é muito bacana comigo. Todo mundo querendo tirar selfie, fico muito cansada…”

((( Trilha )))

RODRIGO: “Como eu sempre fui de uma família com muito letramento racializado, eu respeito muito dona Fernanda Montenegro. Mas eu sempre tive minha Chica Xavier, eu sempre tive dona Ruth, sempre tive mulheres incríveis como referência no teatro. Eu sou muito grato a essas pessoas. E Dona Ruth de Souza é uma das primeiras dessa lista de gratidão, de reverência”

Este é o Rodrigo França. Ator, diretor e roteirista que tem lotado salas de teatro pelo país com peças como “Contos negreiros do Brasil”. 

O Rodrigo também é um personagem deste episódio.

A ideia do Negra Voz Podcast é mostrar exemplos de negros brasileiros de sucesso mais diversas áreas. Literatura, Empreendedorismo, Música, Dramaturgia, Intelectualidade…
Tanto personagens históricos quanto personagens contemporâneos, como o Rodrigo. 

RODRIGO: “Ninguém reclama quando só tem branco no palco. Aí quando eu vou colocar só negro no palco é um problema. Eu não só trabalho com pessoas negras. Se eu puder, se a produção for 100% minha, será. Dentro e fora de cena. Um corpo de trabalho, porque maioria dos espetáculos tem um corpo 100% branco e ninguém questiona. Eu quero que o meu iluminador seja negro, seja negra, a parte da dramaturgia, da direção, da sonoplastia, da assessoria de imprensa… Tem gente que me acha revolts. Não sou, eu sou um amor. A grande diferença é que eu falo de coisa séria. Não dá pra você ser fofo discutindo coisa séria. E muito mais do que isso: como racismo se fala muito pouco no Brasil, principalmente em arte, quem fala parece um tom a mais, mas às vezes eu só estou dizendo o básico”

Talvez você o conheça pelo Big Brother Brasil, ele foi um dos participantes da edição de 2019. 

Ou talvez você o conheça por causa das peças, muito antes do programa. 

RODRIGO: “Por conta do teatro, da minha arte, a minha inquietação já chegava para muita gente. Principalmente uma classe média, uma classe média negra. Um público de teatro, para a academia, por exemplo. Mas eu, eu… quando aceitei o convite, eu pensei que minha voz poderia chegar pra uma tiazinha que mora no Complexo do Alemão, da Maré… Seria a grande oportunidade também, fora de estar concorrendo com o prêmio e etcetera, mas fui focando na visibilidade, né? Publicitar tudo aquilo que de uma certa forma eu já discutia há bastante tempo e que ficava sempre no meu eixo, na minha bolha. E o programa fez com que eu furasse a bolha.”

Rodrigo Ferreira França nasceu em 28 de janeiro de 1978. 

RODRIGO: “Eu nasci em  Botafogo, mas minha família, por parte de mãe é oriunda da Zona Sul, aqui do Rio de Janeiro, e por parte de pai da Zona Norte. Como, como o meu pai era militar, ele trabalhou durante muitos anos num quartel da Baixada Fluminense, a gente foi morar na Penha. E eu sempre tive a possibilidade de transitar tanto nessa… Nos dois extremos de sociedade, né.”

Ele é um dos quatro filhos, todos homens, de Vera Lúcia Ferreira, e Nelson Silva França. Rodrigo é trigêmeo. Ele e os irmãos estudaram no colégio Pio XI, em Ramos. 

RODRIGO: “Uma escola também de classe média, uma escola particular. Eu e meus irmãos como os únicos negros, tinham pouquísimos. Eu não sirvo tanto de parâmetro porque eu não vou ter aquela história para contar de quem passou fome, de quem passou necessidade e ascendeu. Eu sou de uma família que teve uma média condição econômica para poder investir, principalmente, em educação. E depois quando eles entenderam como uma criança, já criança mesmo, que gostava de arte, meu pai foi o primeiro a estimular. Isso é uma relação de privilégio. Acho que é um em um milhão, né”

A Consciência Negra de Rodrigo veio bem cedo.

RODRIGO: “Não posso dizer que fui despertado de uma hora pra outra, como a maioria. Você tem uma educação brasileira que ratifica o mito da democracia racial, e um dia esse jovem ou esse adulto vai sofrer racismo e entende a real configuração. Eu sempre passei por letramento racializado, desde pequeno. Meu pai sempre determinou que não existe meritocracia no Brasil. Se a gente estava naquela escola, tendo a melhor educação, a melhor formação, a melhor comida, foi por conta de privilégio”

Um privilégio que começou a ser construído com o esforço dos avós, por parte de pai e de mãe.

RODRIGO: “Eram pessoas bastante humildes, mas que por alguma chave da vida ascenderam economicamente e possibilitaram que meus pais tivessem estudo”

Bem pequeno, aos 7 anos, Rodrigo começou a tomar aulas no Centro De Arte Maria Teresa Vieira, no Centro do Rio. Desenhava, pintava e esculpia… Chegou a fazer quatro mostras individuais. 

RODRIGO: “E ai o teatro, quando eu fiz 14 anos, o teatro me roubou das artes plásticas… Porque eu era um nerdzinho tímido e muito introspectivo”

Ele foi para a Companhia de Teatro da Uerj, a TUERJ, comandada pelo ator e diretor Antonio Pedro, aquele mesmo, famoso pelos trabalhos na TV, nos palcos e no cinema. 

Paralelamente ao teatro, Rodrigo continuou com os estudos. Depois da escola, seguiu carreira acadêmica. Formou-se em Ciências Sociais, Filosofia e Normal Superior.

Virou professor, inclusive na… Polícia Militar. No curso de formação de PMs, dava aulas de Sociologia Criminal, Sociologia Jurídica, e Ética e Direitos Humanos. E ele conta que não deixava de fazer militância na sala de aula. 

RODRIGO: “Aproveitar que estava diante de policiais ou pessoas em formação para serem policiais e era de consciência, de entender essa lógica genocida e que se morre dos dois lados. Ao mesmo tempo você tem, a cada 23 minutos, um jovem negro que é assassinado no Brasil. Ao mesmo tempo você tem a polícia que mais mata no mundo, segundo a ONU, ao mesmo tempo você tem a polícia que mais morre no Brasil. Trabalhei 12 anos praticamente dentro da Polícia Militar como pesquisador e professor e chegou um momento em que não dava mais pra mim. Eu não, não enxergava que eu podia continuar aquele processo de transformação, mas eu fui muito feliz. Eu não tenho o que reclamar. A minha relação com meus alunos até hoje se estabelece nas ruas. Às vezes para uma viatura para poder falar comigo”

Rodrigo decidiu então focar na carreira artística. Isso em 2014. 

RODRIGO: “Eu sempre questionei esse lugar de ser o único negro no rolê. Nós somos 54% da população, é estranho eu ser o único negro dentro de um espetáculo com 5, com 10, com 15. Sempre transitei em espetáculos e eu não me enxergava nesses espetáculos, como não me enxergo em muitos palcos. Nem em cena, nem fora da cena. Então comecei a questionar, e você passa a ser o chato. E eu entendi que eu só vou ter aquilo que eu realmente desejo se eu fizer. Foi quando eu definitivamente resolvi produzir, produzir os meus.”

A primeira peça que ele fez com uma temática mais étnico-racial foi “Chama”, sobre a condição do jovem negro. 

Daí vieram peças como a infantil “O pequeno príncipe preto”, escrita e dirigida por Rodrigo, e que é estrelada por outro ator: Junior Dantas, e “Oboró – Masculinidades negras”, dirigida por Rodrigo e com texto de Adalberto Neto. 

RODRIGO: “Não tem nenhum agradecimento ali, na hora dos aplausos, na hora de abaixar, de me curvar, em que eu não esteja chorando. Porque é uma luta de séculos, né. Não é uma luta minha, é uma luta de séculos. O Pequeno Príncipe Preto, que é um espetáculo para todo a família, ela quebra um estereótipo do homem negro bêbado, raivoso, no botequim. Você vê pais, homens levando seus filhos. Faz mais do que obrigação? Faz, mas é importante a gente exemplificar que a gente, a gente está no alcoolismo como população negra? A gente está. No manicômio? Sim, está, porque é uma estrutura racista. Mas não só, sabe? Você vê homens solo, pai solo, levando seus filhos”

Quem acompanha o Rodrigo nas redes sociais percebe que ele é um grande adepto e propagador da filosofia Black Money.

Você sabe o que é Black Money?

RODRIGO: “O dinheiro preto. Nós somos 54% da população brasileira, a maioria. Nós negros no Brasil consumimos R$ 1,6 trilhão. E aí tem essa informação, ou seja, a gente consome muito. (…) Aí o SEBRAE, ele liberou as pesquisas que 51% dos empreendedores brasileiros são negros. Na verdade, são negras, a maioria é mulher negra. Só que devido ao racismo institucional tem o crédito negado duas vezes mais que qualquer empreendedor branco, na mesma condição econômica. A questão é: R$ 1,6 trilhão está indo pra onde? Está indo para uma empresa que não respeita minha existência. Então se esse R$ 1,6 trilhão estivessem indo para a dona Maria, negra, que faz a roupa lá no bairro X, ela não precisaria de banco. O Black money é nada mais que uma filosofia econômica, filosofia no sentido de reflexão e ação, de você gastar, consumir a partir dos seus. Os judeus fazem isso. O povo oriental faz isso. E por que, quando a gente faz, é segregação, né? No dia que a gente começar a agir dessa maneira, a gente vai ter uma classe média preta em quantidade, e dinheiro é poder. Eu não tenho um discurso neoliberal, mas é preciso falar sobre dinheiro. É poder. Isso não significa que vai acabar o racismo, mas vai nos dar uma grande rede de proteção”

Antes de encerrarmos, só uma observação. Embora cada episódio seja temático, nenhum deles terá a pretensão de ser, entre muitas aspas, definitivo sobre seu tema.

Este capítulo, por exemplo. Foi sobre Dramaturgia, mas não daria para contar a história de todas as atrizes e atores negros brasileiros num só episódio.

Nas próximas semanas, toda quarta-feira, ouviremos aqui a vida de personagens como Teresa de Benguela, Conceição Evaristo, Luiza Mahin, Lélia González e muitos outros, e até de alguns nomes históricos que… talvez você não conheça. 

Se você gostou, por favor compartilhe o Negra Voz Podcast. 

Produção e roteiro são meus, Tiago Rogero.

A edição foi minha e do Victor Carvalho.

Captação de áudio, Maurizio Belli.

Pesquisa de áudio, Alice Cravo.

A trilha de abertura e encerramento é de Victor Rodrigues Dias e Felipe Kneipp.

Até semana que vem. 

Obrigado, Dona Ruth de Souza.

Legal, acho que foi ótimo, dona Ruth

Espero que tenha dado um bom material”

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