Episódio 02


Olá. 

Eu sou Tiago Rogero.

Este é o 2º episódio do Negra Voz Podcast, o podcast de História Negra do Brasil do Jornal O Globo.

Na escola, a quantos Escritores Negros brasileiros você foi apresentado?

Machado de Assis? Lima Barreto? Talvez Cruz e Souza?

E a quantas Escritoras Negras?

Você aprendeu que, em 1859, quase 30 anos antes da assinatura da Lei Áurea, uma Maranhense, Negra, foi a primeira mulher a publicar um romance abolicionista no Brasil e em toda a América Latina?

A primeira Mulher Negra a publicar um romance em todos os países de língua portuguesa. 

Hoje, nós vamos ouvir quem foi Maria Firmina dos Reis

Mas não só ela. 

CONCEIÇÃO: “Eu sou Conceição Evaristo, professora aposentada pelo município do Rio de Janeiro, mineira e escritora”.

((( Trilha )))

CONCEIÇÃO: “Bom, hoje mais do que nunca eu penso que minha história tem duas pontas. A minha mãe, que está viva em Belo Horizonte, com 96 anos. E minha filha, que é minha especial menina, que acabou de completar 38 anos. E que é uma menina, dado uma síndrome genética que ela tem”.

Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em 29 de novembro de 1946, em Belo Horizonte. Foi a segunda de nove filhos de dona Joana Josefina Evaristo. 

Do pai, Conceição conhece muito pouco. 

Mas esta é uma história sobre mulheres. Sobre a força delas. Sobre a força da Mulher Negra. 

CONCEIÇÃO: “Na minha família, as mulheres que me antecederam frequentaram muito pouco a escola. Ninguém chegou a completar a quarta série primária. O processo de alfabetização da minha mãe vai se completando ao longo dos anos, na medida em que os filhos vão sendo alfabetizados, na medida também que ela tem a necessidade de orientar esses filhos no dever escolar, a minha mãe vai aprendendo junto conosco”.

Elas moravam na Favela do Pindura Saia, numa área nobre de Belo Horizonte. E é Pindura, mesmo, com “i”, porque lá em BH a gente fala assim. A favela não existe mais. 

Se você conhece Belo Horizonte, talvez fique fácil imaginar. 

Uma das principais avenidas de BH é a Afonso Pena. Até os anos 1970, ela ia só até o cruzamento com a Avenida do Contorno. E era ali que ficava o Morro do Pindura Saia. 

Com o passar dos anos, a Avenida Afonso Pena foi prolongada, hoje sobe ATÉ o bairro Mangabeiras e, no lugar da favela, agora tem um mercado distrital.

Enfim. Chegaram os anos 1970, veio a ditadura militar, e comunidade foi removida pela Política de Erradicação de Favelas. 

CONCEIÇÃO: “Eu não tenho assim nenhuma dúvida de que a minha veia de escritora, minha sensibilidade de escritora, ela foi formada dentro de casa. A partir de uma vivência junto com minha mãe, meus tios. Eu tenho dito que não nasci rodeada de livros, nasci rodeada de palavras. Então o exercício de falar, o exercício de escuta, o exercício de criar a partir de uma oralidade, isso afinou meus ouvidos e me deu essa sensibilidade para escutar, para assuntar a vida. Eu gosto muito do termo assuntar, um termo bem mineiro. Eu acho que o exercício da escrita literária é um exercício que exige que você assunte a vida, que você observe as pessoas, observe os fatos, os acontecimentos e traga para dentro de si e devolver isso pela escrita”.

A mãe dela era lavadeira. A tia era lavadeira. As primas eram lavadeiras e todas elas trabalhavam também em, abre aspas, casas de família. 

CONCEIÇÃO: “Ironicamente, eu gosto de dizer que o destino da literatura me persegue. Porque a minha mãe trabalhou para grandes escritores mineiros. Ela trabalhou, por exemplo, para Alaíde Lisboa de Oliveira”

Alaíde é a autora de um clássico da literatura infantil brasileira: “A bonequinha preta”, de 1938. Dona Joana, a mãe de Conceição, também trabalhou na casa de parentes do jornalista e escritor Otto Lara Resende.

CONCEIÇÃO: “O destino da literatura me persegue e persegue a partir desse lugares subalternizados. Essas mulheres com essas experiências dolorosas de subalternização, geneticamente, elas me inocularam nesse exercício da escrita. Muitas vezes com outras escritoras e escritores, eu percebo que é uma história bem diferente o contato que eles têm com o livro. Alguns ganham uma biblioteca muito cedo, outros são filhos de professores ou professoras, outros são filhos de escritores também”.

Assim como a mãe, as tias e as primas, Conceição começou cedo a trabalhar. Muito cedo. Aos 8 anos de idade. 

CONCEIÇÃO: “Já no primário eu fiz muita limpeza em casa de professores em trocas de livros. Essa experiência da subalternidade é uma experiência que eu conheço bem, bem de perto. A pobreza é também um lugar de aprendizagem. A pobreza ela pode lhe fornecer dados até para você construir uma episteme. Mas só quando você rompe. Acho que a gente não pode romantizar a pobreza. De dizer ‘sou formado na escola da vida’. É muito bom você ser formado na escola da vida, mas, em determinados momentos, a sua formação na escola da vida não lhe dá garantia de emprego, não lhe dá garantia de respeito, não lhe dá garantia nenhuma. Então a pobreza, ela vale como lugar de aprendizagem se você vencer essa linha de pobreza”.

Mas Dona Joana conseguiu que Conceição e seus irmãos estudassem numa escola boa de BH. 

CONCEIÇÃO: “Estudei no grupo escolar Barão de Rio Branco. Na época em que estudei, nos anos 50 ainda, o grupo Barão de Rio Branco era um espaço para classe média alta”

Foi a primeira escola de BH e existe até hoje, na Savassi, também um bairro chique. 

Nessa época, as turmas eram divididas em dois andares. 

No andar de cima ficavam os alunos que não repetiam de ano, ganhavam medalhas. Quando tinha coroação de Nossa Senhora, as crianças desse andar eram as escolhidas para representar os anjos. 

CONCEIÇÃO: “Essas classes eram formadas por meninas e meninos brancos e ricos”.

No andar de baixo, ficavam os alunos com as piores notas, que repetiam de ano. 

A Conceição usa uma palavra para se referir a esse andar. 

Porão. 

CONCEIÇÃO: “Tem um texto meu que eu falo: “porões do navio, porões da escola”. As classes do porão eram maciçamente de alunos e alunas que vinham da favela em torno, que era o meu caso”.

CONCEIÇÃO: “Você nem deve conhecer isso aqui. Isso aqui é um missal. Já ouviu falar de missal? Aquele livrinho que a gente leva para ir para a missa, no tempo que a missa era em latim e tudo. Da terceira para a quarta série, eu consegui passar com uma nota muito boa. Então fui para a classe superior da escola. E para mim foi o grande orgulho, porque eu saí do porão na quarta série primária. E no final do ano, nas provas finais, eu fiz essa redação e ganhei um prêmio, que é esse missal aqui. Prêmio de Literatura Sandoval de Azevedo concedido a… (tá tudo apagadinho) concedido à aluna Maria da Conceição Evaristo pela excepcional ideia… Foi no dia 14 de fevereiro de 1958. O mais petulante para mim é que eu escrevo aqui: ‘Lembrança do meu segundo passo para a glória’. Olha só. Minha formatura. Prêmio  de literatura. Então aos 12 anos eu ganhei meu primeiro prêmio de literatura”.

Por precisar sempre conciliar trabalho e estudo, a Conceição Evaristo teve um Ginásio, como era chamado na época o ensino fundamental, com muitas interrupções. 

Então demorou um pouco mais até ela se formar. Quando completou a escola, Conceição fez o Curso Normal, que formava professores para a rede primária. Mas não conseguiu achar emprego.

CONCEIÇÃO: “Fico um ano desempregada porque naquela época não tinha concurso para professores em Belo Horizonte. Para conseguir trabalhar, você dependia de alguém indicar, alguém arranjar uma vaga pra você”.

E isso foi justamente quando a família dela estava sendo removida da favela do Pindura Saia. 

Pensa comigo: a renda de todo mundo, que já era bem pouca, vinha dessas relações com a vizinhança rica. 

As lavadeiras, por exemplo. 

Elas iam até a casa das patroas e pagavam as trouxas de roupa. Levavam para a favela, lavavam e entregavam de volta. 

Com a remoção, essas pessoas foram mandadas, com uma mão na frente e a outra atrás, para quilômetros de distância. 

E a Conceição, formada como professora mas há um ano sem conseguir emprego, resolveu tentar a sorte no… Rio de Janeiro. Ela fez concurso e se tornou professora da rede municipal. 

CONCEIÇÃO: “Aí cheguei aqui, trabalhei em 1973 e em 76 eu fiz vestibular para UFRJ. Fiz para Letras porque eu gostava, como gosto, muito de ler, então fiz para letras Aí, finalizando esse processo da graduação, eu ia terminar em 1981, e em 81 a minha filha nasce com problemas de saúde. Então eu larguei a faculdade durante cinco anos ou mais. Fui cuidar dela primeiro, porque eu trabalhava na época, era professora de primeira a quarta e não dava para conjugar trabalho, tratamento da minha filha e faculdade. 

Qual o nome dela? Ainá

Aí larguei a faculdade, cuidei dela primeiro, fui trabalhando. Depois voltei, terminei a graduação. Aí fui para a PUC fazer o mestrado. Essa história de mestrado também é uma história que foi o momento em que eu precisava provar para mim mesma que eu estava viva. Porque em 1989, meu marido faleceu de repente, em Belo Horizonte. Foi para Belo Horizonte passar ano novo, ele infartou. E eu fiquei sozinha com a Ainá com 9 anos. Era uma menina, com 9 anos, você poderia pensar numa criança de 3 anos.” 

Conceição é graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.

Literatura.

Conceição Evaristo é autora de sete livros.

As obras dela já foram traduzidas para francês, inglês, espanhol, alemão e árabe. A escritora foi finalista do Prêmio Jabuti em 2015 com “Olhos d’água”. Em novembro, agora, o Jabuti homenageará Conceição Evaristo como a Personalidade Literária de 2019.

Mas sabe quanto tempo demorou para que ela conseguisse publicar o primeiro livro? 

Quinze anos. 

CONCEIÇÃO: “Olha, a primeira vez que tentei publicar uma obra minha foi em 88, quando escrevi ‘Becos da memória’. Em 1988, estava uma efervescência muito grande de procura, visibilidade pro negro, porque se comemorava os 100 anos da assinatura da lei áurea. Então nesse momento, eu tinha acabado de escrever “Becos da Memória”, o professor Muniz Sodré fez uma crítica ao livro bem interessante E aí o ministério da cultura ficou sabendo e se interessou em publicar o livro”

Trecho do jornal O Globo de 31 de maio de 1988

Quando o Ministério da Cultura lançar, em dezembro, a coletânea “Centenário da Abolição”, uma nova escritora memorialista estará se revelando para o público. Conceição Evaristo de Brito, 41 anos, professora primária e estudante de Letras, é autora de “Becos da Memória”. O livro – incluído na coletânea – conta a história de sua adolescência, passada na favela do Pindura Saia, em Belo Horizonte.

A publicação do livro é o resultado de uma longa luta. Primeiro, foi o esforço para relembrar o passado. Depois, encontrar tempo para escrever em meio a suas atribuições de mãe, dona de casa, professora e estudante. Com o original pronto, ela teve que enfrentar uma batalha talvez maior: furar o cerco das grandes editoras.

Bacana, né? 

Só que o livro não saiu.

CONCEIÇÃO: “Não sei se foi questão de verba, o livro acabou não saindo naquele ano, em 1988, onde tinha uma possibilidade de recepção muito grande. Aí fiquei chateada e deixei o livro guardado 20 anos. Aliás, nesse intervalo, eu mandei esse livro também para algumas editoras, duas editoras. O livro me foi devolvido. Sem nada. A impressão que eu tive é que o livro chegou e eles não tomaram nem conhecimento e me devolveram o livro”

Desde os anos 1970, Conceição já participava de discussões e encontros do Movimento Negro. Conheceu Lélia González, por exemplo, a antropóloga e filósofa tida como uma das precursoras do feminismo negro brasileiro, e que também será tema de um episódio deste podcast. 

No fim da década de 1980, Conceição começou a participar do Negrícia, um grupo de escritoras e escritores negros. Ela conheceu a turma do Quilombhoje e, em 1990, publicou seus primeiros poemas, na coletânea Cadernos Negros. E continuou a publicar nos anos seguintes, ora em prosa, ora em poesia.  

Entre os leitores dos Cadernos Negros, estava uma professora mineira que dava aulas na universidade de Iowa, nos Estados Unidos: Maria José Somerlate Barbosa. 

CONCEIÇÃO: “Quando é um dia, ela chega à minha casa e fala: ‘Olha, já está na hora de você publicar alguma individual. Você tem?’. Aí eu tinha ‘Becos’, mas falei “Ah, não, vamos então’… Tinha também ‘Ponciá’. Como ‘Ponciá’ também era menor, eu falei: ‘Bom, eu até publico, mas você vai fazer o prefácio’. Aí, o primeiro livro publicado foi ‘Ponciá Vicêncio'”.

Isso foi em 2003, pela editora Mazza, de Belo Horizonte. 

Quinze anos depois de ela ter tentado publicar pela primeira vez, com “Becos da Memória”. 

CONCEIÇÃO: “Se eu fosse uma mulher branca, será que não teria sido mais fácil?”

“Becos da Memória”, aliás, continuou guardado na gaveta até 2006, quando finalmente foi lançado. Depois, vieram “Poemas da recordação e outros movimentos”, em 2008; “Insubmissas lágrimas de mulheres”, em 2011; “Olhos d’água”, em 2014; “Histórias de leves enganos e parecenças”, em 2016, e “Canção para ninar menino grande”, em 2018. 

CONCEIÇÃO: “Poucos críticos literários, desses críticos que estão aí reconhecidos como críticos, leram minha obra e falaram alguma coisa. Hoje tenho uma fortuna crítica muito boa, tanto aqui no Brasil como nos Estados Unidos, como na Europa agora, na França. Mas outros críticos, nem tchum, como diz mineiro. Eu já tinha participado de vários seminários com escritoras e escritores brasileiros, ficando no mesmo hotel, participando quase que da mesma mesa. Foi preciso eu ganhar o prêmio Jabuti para alguns deles se dignarem a me dar um bom dia, a me perceber. E isso tem um nome. Isso tem uma causa. É porque eu sou uma mulher negra. E que tipo de olhar a sociedade dirige para as mulheres negras? Está acostumada a ver as mulheres negras no fundo da cozinha. Não estão acostumados, por exemplo, a ver uma mulher negra hoje como se tem uma Djamila, como se tem uma Sueli Carneiro. Porque eu acho que hoje, por ação nossa, mesma, nós estamos quebrando com esse imaginário que se tem em relação às mulheres negras. Mas isso é muito a nossa luta, muito nosso trabalho, muita nossa imposição, muita nossa veemência no discurso. Então, se eu tivesse nascido numa outra condição social ou fosse uma escritora branca, esse reconhecimento teria sido mais cedo”.

EDUARDO: “Tem mais de 30 teses e dissertações já defendidas no Brasil sobre a Conceição Evaristo, que é uma escritora que só publica individualmente em 2003. Então é uma escritora que, apesar dos seus 72 anos, que só vai aparecer no século XXI, e é uma pessoa que começou a escrever na década de 1980. Então é muito difícil para o negro assumir esses lugares que a academia destinou para as elites brancas”.

Este é Eduardo de Assis Duarte, escritor e professor aposentado da faculdade de Letras da UFMG. Ele é o criador do Literafro, o Portal da Literatura Afrobrasileira, um site que reúne verbetes, obras e links sobre mais de 140 escritoras e escritores negros brasileiros. 

Eu me encontrei com ele em Belo Horizonte para conversar sobre outra grande autora negra.

Maria Firmina dos Reis

EDUARDO: “A Firmina é, não só, a primeira mulher negra a publicar um romance no Brasil, como primeira mulher negra a publicar um romance em toda a língua portuguesa. Em toda a lusofonia, ela é a primeira mulher negra a publicar um romance. A pesquisa está em andamento, não está concluída ainda, mas tudo indica que é a primeira mulher negra a publicar um romance em toda a América Latina é a Maria Firmina”.

Foi em 1859 que a maranhense Maria Firmina dos Reis, uma mulher negra, publicou o romance “Úrsula”. 

E não era qualquer romance. Era abolicionista. 

Vou repetir o ano da publicação: 1859. A Lei Áurea só foi assinada 29 anos depois, em 1888. 

EDUARDO: “É um registro que vai no cerne do problema e conta o drama do negro a partir da perspectiva do negro. Do lugar de fala do negro. Ela se coloca como negra. E ela narra desse ponto de vista. É aí que está o diferencial todo da Firmina. E nesse momento o que o romance fala? É a primeira vez em que a África aparece na literatura brasileira. A Firmina tem todo um capítulo em que a Preta Suzana, que é o centro do romance, toma a palavra e conta como que era a vida dela na África, que ela tinha marido, pai, mãe, esposo, filho, uma autoridade, um rei, a quem obedecer, que ela tinha uma autoridade religiosa, enfim, uma sociedade civilizada. E que ela vivia em plena harmonia, não só com seus congêneres, semelhantes, mas com a própria natureza. Até o dia em que aparecem uns bárbaros brancos que vão aprisioná-la e jogá-la num porão do navio negreiro”.

E quem foi Maria Firmina?

EDUARDO: “A Maria Firmina nasceu, documentos recentes comprovam, em 1822. Ela nasceu justamente meses antes da independência do Brasil. Ela era uma mestiça, hoje nós chamamos de negra em respeito ao momento contemporâneo, e ela é fruto de uma ligação extraconjugal de um senhor branco com uma escrava. A mãe dela era escrava, ela é essa filha que nasce fora do casamento, logo logo essa mãe foi alforriada, temos aqui nessa última edição cópia da certidão de batismo dela em que conta o nome da mãe como escrava alforriada e consta o nome do senhor dessa escrava, que não sabemos se é o pai da Firmina. Tudo indica que sim”.

Firmina nunca conheceu o pai. Quando tinha só 5 anos de idade, perdeu a mãe, Leonor. 

A garotinha foi então morar com a tia e elas se mudaram de São Luís para a vila de Guimarães.

EDUARDO: “Firmina não frequentou universidade, não foi pra Europa fazer curso superior, é uma autodidata, uma intelectual que lia tudo o que lhe caía pelas mãos, que lia francês, que aprendeu francês que naquela época era a língua da intelectualidade”.

Mesmo sem acesso a uma educação formal, ela conseguiu, aos 25 anos de idade, em 1847, se tornar a primeira mulher aprovada num concurso público para ser professora no Maranhão. 

EDUARDO: “E ela então vai atuar a vida toda como professora, sempre em Guimarães, numa longínqua localidade separada da capital pela Baía de São Marcos, que é um mar perigosíssimo onde Gonçalves Dias, contemporâneo dela, naufragou e morreu. Hoje, para você ir de São Luís a Guimarães de ônibus, dando a volta na Baía, são quase que oito horas de viagem”.

E com tudo isso, Maria Firmina deu um jeito de entrar no meio literário do Maranhão. 

EDUARDO: “A Firmina começa aos poucos, pelas beiradas, publicando um poema aqui um dia num jornal, o outro poema no outro jornal, uma crônica aqui e outra acolá. E começa a despertar a sensibilidade desses outros homens de Letras que formavam o tal do parnaso maranhense”.

Ela terminou “Úrsula” em 1856. 

Mas só conseguiu publicar três anos depois. 

EDUARDO: “Há anúncios na imprensa de São Luís daquela época em que ela está pedindo subscrição pública, é a prévia do que hoje se chama de crowdfunding, via internet, a Firmina usando os jornais, pedindo subscrição, colaboração, para poder rodar o livro. O livro deve ter sido impresso numa tiragem mínima e logo logo foi abafado, porque era um livro revolucionário por dar a palavra ao negro e dar ao negro o lugar de fala, e falar do ponto de vista do negro, reproduzir a visão de mundo do negro, e inclusive o negro escravizado, coisa que os abolicionismos brancos do Brasil e dos países latino-americanos todos não vão conseguir fazer, porque é uma visão externa”.

E, afinal, “Úrsula” é sobre o quê?

À primeira vista, conta a história de um amor impossível entre dois personagens… brancos. 

Era uma estratégia, explica o professor Eduardo de Assis Duarte.

EDUARDO: “Quem é o vilão? O vilão é o senhor, é o patriarca. O vilão é o senhor de escravos. Esse é o vilão. Quem são suas vítimas? Os escravos negros, que são puros, bons, pessoas honestas que acreditam na Bíblia e em Deus, enquanto o senhor não acredita. Porque a Bíblia diz que somos todos iguais, e o senhor acredita lá que o branco é melhor do que o preto. Isso está explícito no livro Não vou contar o final do livro, mas são várias histórias, cada capítulo ela foca principalmente num determinado personagem e com isso, muito habilmente, sem ser uma história só dos escravos, ao contrário de ‘A cabana do Pai Tomás’, por exemplo, que é só a tragédia dos negros e mais nada, ela vai encaixando as histórias umas em cima das outras, vai entrelaçando as histórias, aí aparece todo o problema do patriarcado. Todo o problema desse sistema que aprisiona a mulher e que aprisiona o escravo, ou o escravizado, melhor dizendo”.

Esse livro ficou perdido por 116 anos. 

Cento e dezesseis anos. 

EDUARDO: “A Maria Firmina é um fenômeno. Ela era uma escritora absolutamente desconhecida, as histórias da literatura que eu estudei quando eu fiz faculdade de Letras, nos anos 1970, ignoram a Firmina completamente”.

“Úrsula” só volta a ser publicado em 1975 graças ao pesquisador José Nascimento Moraes Filho, que descobriu um fac-símile da obra. 

E escuta isso:

A primeira versão do livro não tinha o nome dela. 

EDUARDO: “É outra coisa que dificultou o resgate porque na primeira edição ela assinou apenas como ‘Uma maranhense’. O nome Maria Firmina não aparece no livro. Pra você ver as dificuldades que haviam para as mulheres serem aceitas no mundo das letras. Porque as mulheres tinham uma série de impedimentos, tinham dificuldade de escolarização… Só em 1827 é que se permitiu a abertura de escolas no Brasil que aceitassem meninas”.

Foi durante essa longa pesquisa nos anos 1970 que Moraes filho conseguiu comprovar que a “Uma maranhense” da capa era Maria Firmina.

Muito do que se sabe hoje sobre ela foi fruto também da pesquisa de Dilercy Aragão Adler, escritora e professora da Universidade Federal do Maranhão. 

E quer saber outra coisa muito doida? 

Não existe foto de Maria Firmina dos Reis.

E não só não existe foto como a que geralmente é atribuída a ela é de uma mulher… branca. 

EDUARDO: “Você entra na internet, procura Maria Firmina dos Reis e aparece a imagem de uma escritora branca do Rio Grande do Sul, descendente de alemães, que é uma escritora respeitada do século XIX, gaúcha… O nome dela é Maria Benedita Bormann, ela é descendente de saxões, e essa senhora tem o seu rosto confundido com o da Maria Firmina dos Reis, não dá para prosseguir com isso”.

Se você for a São Luís, existe um busto de Maria Firmina dos Reis na Praça do Pantheon. Foi esculpido com base em relatos que o Nascimento Moraes Filho coletou de pessoas que conheceram ela.  

EDUARDO: “O busto tenta reproduzir essa descrição que as pessoas deram e que o pesquisador publicou, mas a gente precisa achar essas fotos. E eu tenho certeza de que elas existem porque ela circulava, ela foi recebida pelos governadores da época, pelas autoridades”.

Ela ainda chegou a publicar mais um livro, desta vez de poesias: “Cantos à beira-mar”, em 1871. 

Continuou escrevendo contos para os jornais e revistas locais, e a vida toda foi professora. Alfabetizou muita gente. 

Sofreu racismo e machismo. 

Nos anos 1880, ela criou a primeira escola mista do Maranhão. 

Gratuita. 

Pela primeira vez no estado, meninos e meninas dividiriam a mesma sala. Foram dois anos e meio sofrendo ataques, inclusive da imprensa conservadora, até que ela não conseguiu mais  e fechou a escola. Ela morreu em 1917, em Guimarães. 

Recentemente, uma boa parte da obra dela, inclusive composições musicais, foi publicada em “Memorial de Maria Firmina dos Reis”, em dois volumes, pela editora Uirapuru. 

Um outro bom livro sobre ela é “Maria Firmina dos Reis: faces de uma precursora”, pela editora Malê.

EDUARDO: “A História da Literatura Brasileira é cheia de vazios, de desvãos, de buracos, de falhas, e o mesmo acontece com a produção negra. Ou você tem um processo de embranquecimento dessa produção, de achar que Machado de Assis é Branco, que Cruz e Souza só fala de brancura… é um poeta negro que só fala de branco… Mentira! Vai ler direito Cruz e Souza! É preciso ler sem estar apegado a uma espécie de racismo institucional, que se disfarça como se fosse, assim, algo da natureza… Ninguém pergunta por que está respirando. Ninguém pergunta por que não tem autores negros na História da Literatura brasileira. Pouquíssimos”.

CONCEIÇÃO: “Eu não quero ser vista como exceção”.

Aqui a Conceição Evaristo, novamente. 

CONCEIÇÃO: “Acho que, principalmente nesses tempos, a exceção reforça o discurso da meritocracia. Esse discurso que fala se você estudar, se você se esforçar, você consegue… Claro que isso não tira o mérito, eu não vou ser modesta a ponto de dizer que não é difícil, que eu não fiz grandes coisas. Fiz sim, foram sacrifícios imensos, opções imensas, mas isso não significa que só eu fiz isso. Muita gente faz isso a vida inteira e não consegue. Por que tem gente que não faz isso e já nasce com tudo pronto? Então, há uma dinâmica das relações sociais na sociedade brasileira que uns tem que trabalhar desbragadamente e ficam pelo meio do caminho. E outros, não. Ao me ter como uma como uma grande escritora, a sociedade exemplifica que as mulheres negras podem, sim. Mas elas podem a partir de nossos esforços. Elas não podem porque a sociedade graciosamente nos recebe. E aí, uma coisa que tenho insistido muito: a exceção tem que ser pensada para questionar as regras. Claro que eu celebro, fico sempre muito feliz, acabei de vir agora de Paris, o meu livro de poemas foi traduzido pela editora que traduz Clarice Lispector. Então isso para minha vaidade pessoal, eu seria cínica de falar ‘Não, não estou feliz, isso não significa nada’. Estou feliz demais, tenho brincado muito: ‘Gente, eu estou lacrando’. Mas não quero que a minha vida sirva para justificar esse discurso da meritocracia. Eu sou uma exceção, e como exceção tem que se questionar as regras. Onde estão as outras escritoras negras? Onde estão os outros escritores negros? Por que para gente é tudo tão difícil?”. 

O Negra Voz Podcast volta na semana que vem. 

Se você gostou, há duas formas apoiar o Negra Voz Podcast: 

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E assinando O Globo. Tem vários tipos e preços diferentes de assinatura, dê uma olhada no site do jornal. 

Produção e roteiro são meus, Tiago Rogero.

A edição foi minha e do Victor Carvalho.

Captação do áudio, Maurizio Belli. 

Aquele trecho de uma reportagem antiga do Globo foi lido aqui pela Ana Carolina Diniz. 

A trilha de abertura e encerramento é de Victor Rodrigues Dias e Felipe Kneipp.

Até semana que vem. 

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